3
MINUTOS DE ROMANCE
Técnica -
Prefixo
Locutor - Boa
noite, ouvintes. No ar...3 minutos de romance...um
encontro de amor, sonho e poesia...3 minutos de romance -
produção e apresentação de René Zmekhol, com
exclusividade para a Rádio Santo André...
Técnica - sobe o
prefixo
Locutor - ...e
com René ao microfone...3 minutos de romance
Técnica - entra
o sufixo e vai a B.G.
René -
...é sempre conveniente, a sociedade, a religião...e
nós? Que deve ser feito desse afeto que ilumina nossa
vidas...a minha ao menos ?
Pecado ?
Pecado seja! Mas as horas que vegeto, em tua
ausência...são séculos de angústia. Tentei
esquecer-te...melhor, pensei...mas não ! Não é
humanamente possível, da face da terra, num dia radioso
de primavera, fingir que o sol não existe...não é
possível, amor...meu pensamento te procura, te encontra
e nos aproxima, inapelavelmente...Pecado ? Pecado seja !
Ao menos, busco em teus beijos, longos, sensuais...o
prêmio imerecido - quem sabe ? - desta abençoada
aventura...de modo algum minhas emoções se sujeitam aos
séculos de angústia que se escoam; quando longe de ti,
eu já não vivo...mas apenas vegeto...
Técnica - sobe o
sufixo e vai a B.G.
René -
As horas que vegeto, em tua ausência, são séculos de
angústia e de tormento Que devo, assim, viver por
conveniência.
De nada vale, amor...meu
pensamento
Procura te encontrar, por
imprudência,
E traz-me, à sua volta, o
sofrimento.
Não posso te esquecer - e
nem o quero !
E não posso esquecer a tua
boca...
Os beijos pelos quais eu
tanto espero
São bem os prêmios da
aventura louca !
Técnica - sobre
o sufixo deixa até o fim do disco
Locutor - A
rádio santo André apresentou...3 minutos de
romance... um encontro de amor, sonho e poesia -
produção e apresentação de René Zmekhol...
Técnica -
Prefixo...
Locutor - Voltem
a ouvir...3 minutos de romance na próxima 5ª
feira, nesse mesmo horário...
Técnica - sobe o
prefixo.
F I M
ZERO HORA
Esperei, nervosamente, que os ponteiros
do relógio se encontrassem.
Eu não queria ser surpreendido por ninguém. Da calçada
fronteira ao meu edifício olhei para as janelas do 10º
andar. Tudo apagado. Todos dormindo. Finalmente.
Entrei no prédio, evitando o porteiro.
Pé ante pé, mas sem exagero.
No elevador, separei a chave,
cuidadosamente. Entrei no melhor estilo de um
experimentado ladrão. Fechei a porta, não sem antes ter
mandado o elevador para o térreo.
Com os dedos trêmulos fechei a porta
do corredor que levava ao dormitório.
Só então acendi as luzes da sala.
Olhei carinhosamente para a caríssima aparelhagem de
som. Nela eu já tinha ouvido, muitas vezes contra a
vontade, Ney Matogrosso, Stevie Wonder, Elton John,
Procol Harum, Roberto Carlos, Roberto Carlos, Roberto
Carlos, Roberto Carlos, Milton Nascimento, Scott Joplin,
Harmony Cats, Nara Leão, Elis Regina, Sylvester,
Roberto, Carlos, Roberto Carlos e Roberto Carlos.
Encontrei, facilmente, os fones de
ouvido, coloquei-os na cabeça e enfiei o
jack num dos orifícios do jumbo.
Seria esse, mesmo, o orifício certo?
Se não fosse eu correria o perigo de fazer barulho, ao
ligar o aparelho e tudo iria por água abaixo...
Resolvi virar o botão
volume todo para a esquerda, o botão
seletor para PHONE1 e, só então
apertei o Power.
Abri cuidadosamente a tampa do
toca-discos, puxei a pequena alavanca, de Off
para On-Up e coloquei o disco que estava
quase no fim da pilha.
Cuidadosamente, trouxe o braço do
toca-discos até a primeira faixa e puxei a pequena
alavanca, de On-Up para Down .
Mais cuidadosamente, ainda, girei o
botão volume para a direita, bem devagar
e...graças a Deus! Estava tudo certo. Uns doces acordes
e eis que chega aos meus ouvidos, finalmente, depois de
tantos anos, aquela voz doce, acariciante, quase divina
que, em 1965 arrepiou a sensibilidade do gênio que foi
Assis Chateaubriand numa das amplas salas de visitas
mineiras, na expressão de Sérgio Viotti. Naquela
noite inesquecível, na casa do Prefeito Pierucetti, uma
garota simples, envolvente com o brilho do seu doce
olhar, mas tímida, me havia perguntado se poderia
oferecer uma canção ao Dr. Assis que ali se encontrava
em sua cadeira de paraplégico.
- Claro, disse eu, deixe-me, apenas
preveni-lo.
Ante a aquiescência do grande
jornalista - título que prezava acima do de embaixador -
a garota se ajoelhou diante da cadeira de rodas, pousou a
mão sobre a dele e, sem qualquer acompanhamento,
ofereceu-lhe uma cantiga do nosso cancioneiro. O vozerio
de muita gente que ali estava cessou como num passe de
mágica. A emoção era geral. E a admiração - maior
ainda.
Depois dos aplausos vibrantes e
demorados de todos os presentes ela continuou conversando
com Chateaubriand e contou-lhe que pretendia ir, em
breve, aos Estados Unidos para estudar canto.
Recebi a ordem de apresentá-la a Bidú
Sayão o que me apressei a fazer, redigindo uma cartinha,
que, junto a outra apresentação a um amigo de Nova
Iorque, entreguei-lhe na noite seguinte, enquanto
jantávamos num restaurante de Belo Horizonte.
No agradável diálogo que travamos,
tentei dissipar todas as suas dúvidas e encorajá-la.
Estou feliz por ter ajudado um pouco.
Relembrando tudo isso, estou feliz também por ter dado o
golpe do toca-discos. Agora, à zero hora,
aqui em casa , os fãs de Roberto Carlos, Sylvester,
etc., estão dormindo.
E eu posso, finalmente, escutar, inebriado, embora tenha
adquirido o disco há mais de um mês, Maria Lúcia Godoy
cantando Sabiá, Casinha Pequenina, Fiz a Cama na
Varanda, É a ti Flor do Céu, Quem Sabe, Travessia e
algumas jóias do cancioneiro italiano.
Parece pecado...mas pecado é não ouvi-la.
|
O SUBSÍDIO
Ele era o
melhor cliente do meu escritório de consultoria
econômica e me atraíra, insistentemente, para um jantar
em sua Fazenda, no interior de São Paulo.
- Você não é amigo do ministro? Pelo
amor de Deus, fale com ele!
Expliquei, com toda a calma, que eu era
seu amigo bem antes que lhe fosse entregue tão alto
cargo. Éramos amigos e colegas. O coleguismo é m
relacionamento que se acaba, seja ao fim do período
escolar, seja quando os níveis de atuação profissional
se afastam. E que a amizade, segundo o grande poeta
espanhol Ramón de Campoamor, é um amor que não se
comunica pelos sentidos.
A esposa do meu cliente se encantou com
a citação. Ele, porém, estava obcecado pela idéia de
ver sua empresa incluída no rol das que seriam
aquinhoadas pelos subsídios governamentais. Esperou que
o mordomo de sua Casa Grande reabastecesse os copos com o
excelente vinho Chateau Lafitte Rotschild, levantou o seu
e brindou, sorridente:-
- Ao seu encontro, amanhã, com o
ministro!
De nada valeram meus argumentos em
contrário. Teria que ser no dia seguinte, mesmo sem
audiência marcada. E logo pela manhã, pois o conselho
Monetário Nacional iria aprovar, à tarde, a
distribuição da verba. Meu cliente era um homem de rara
educação e muito convincente. Repetiu:-
- Pelo amor de Deus! O ministro é seu
amigo...
Na manhã seguinte, já chegando ao Rio
de Janeiro, deslumbrado, pela enésIma vez, com a
luxuriante visão da Cidade Maravilhosa, eu agradecia a
Deus e ao presidente da República por não ter sido,
anda, transferido para Brasília o Ministério da
Fazenda.
Constatei logo que, de fato, eu
mantinha prestígio junto ao homem poderoso das finanças
públicas: menos de quinze minutos depois de me haver
anunciado, ele me recebia. Bonachão como sempre,
sorridente e irônico, perguntou se eu preferia um café
ou um refresco nordestino. Outro amigo comum se
encontrava presente, seu Chefe de Gabinete.
Depois de um breve diálogo sem
compromisso. Contei que estava assessorando uma usina de
açúcar, no interior de São Paulo. E que espera que ela
estivesse incluída entre as beneficiárias do subsídio
de emergência que seria votado, naquela tarde, pelo CMN.
Ele pediu ao Francisco, o Chefe de Gabinete, a proposta
que seria encaminhada.
Eram todas usinas do norte e nordeste.
Expliquei, meio irritado, que não se justificava tal
discriminação. Que a usina paulista estava sofrendo,
igualmente, a conjuntura desfavorável, que chegava a ser
odioso esse eterno favorecimento, que...
Interrompeu-me, sorrindo, e,
perguntando qual o nome da minha, usina,
acrescentou-a à lista, abaixo do total.
- De quanto vocês precisam?
Tive um momento de hesitação,
enquanto examina, furtivamente, os valores consignados e
escolhi o maior deles. Eu não tivera tempo de preparar
um dossiê, por mais sintético, para justificar o
pedido, se o ministro viesse a concordar. E, mais, não
tinha qualquer parâmetro. Esse problema me assaltou,
durante todo o vôo. Agora, vendo os números das outras
usinas, senti-me firme para solicitar o subsídio de
maior valor.
Enquanto o ministro puxava o novo
total, Francisco preveniu-o de que a verba, assim,
estouraria. A reação foi imediata:
- A verba, ora a verba !...Mande, assim
mesmo, para o Conselho.
Agradeci muito e me levantei, para me
despedir, ao que o ministro protestou:
- Espera ai...encheu a barriga e já
vai embora? Me conta uma coisa. É verdade que você é
campeão da Regata da Escola Naval? O Chico jurou e eu
não acreditei...
Contei-lhe, então, as peripécias da
última regata, mas corrigi a informação. Eu
conquistara o vice-campeonato.
- Mas, para um paulista, isso é mais
do que ser campeão ! Meus parabéns! Como é? Não quer
ficar aqui no Rio, na minha equipe?
Agradeci, emocionado, a oferta e
expliquei a série de motivos que não me permitiam
aceitá-la. E me despedi, ansioso por telefonar ao meu
cliente.
Ele me atendeu, ouviu o relato e
declarou, com toda a naturalidade:
- Eu não disse que o ministro era seu
amigo?
A bordo do Eletra, na poltrona de minha
preferência, na popa, depois de ter conhecimento de que
o CMN havia aprovado, efetivamente, a lista completa dos
subsídios, eu já ia, mentalmente, preparando o plano de
aplicação. Pagos os débitos em atraso, ainda sobraria
uma bela importância para investir na área de moagem,
nas pesquisas de um subproduto de grande procura nos
mercados mundiais e no aumento da frota de veículos.
Agora eu tinha um parâmetro. Só faltava preparar o
projeto. E eu não entendia, anda, como é que o Conselho
Monetário Nacional aprovara o meu subsídio
sem qualquer justificativa...
Outra coisa que eu não entendia era a
frieza com que meu cliente recebeu a notícia, quando lhe
telefonei; tão eufórico. No encontro pessoal, na manhã
seguinte, em seu luxuoso escritório de São Paulo, a
frieza era a mesma. Ele examinava um grande globo
terrestre, quando entrei em sua sala. Respondeu,
solenemente, ao meu cumprimento e perguntou:
- Professor, o senhor sabe dizer o nome
de três cidades que estejam no mesmo paralelo de São
Paulo?
- Antofagasta, no Chile, Concepción,
no Paraguai, Massinga, em Moçambique e Rockhampton, na
Austrália.
- Muito bem...me disse quatro! E há,
ainda Tulém, em Madagáscar!
Essa era uma de suas manias e, por
isso, eu havia decorado, também, as cidades que se
encontravam no mesmo meridiano.
- E no mesmo meridiano, professor?...
- Fora do Brasil, só Juliane, na
Groenlândia
- Julianeaab - completou ele,
sorridente.
Ultrapassado o onanismo geográfico,
entramos no assunto principal. O que ele queria, mesmo,
saber era a data em que seria liberado o subsídio, onde
e se seria em parcelas. Redargüi que essas informações
seriam obtidas nos próximos dias que, enquanto isso, eu
estaria finalizando o plano de aplicação dos recursos
para submetê-lo à sua aprovação.
- Ah! Muito bem, professor...assim que
souber, por favor me avise.
O delegado do Instituto do Açúcar e
do Álcool em São Paulo sempre me recebia com extrema
cordialidade. Desta vez, porém, foi demais, Fez-me
verdadeira festa, disse que eu era o melhor economista do
Brasil, que a usina do meu cliente estaria falida se não
com minha assessoria e muito mais disse, enquanto me
cumprimentava pela sensacional vitória. Fez questão de
explicar que havia consultado o IAA, matriz, no Rio de
Janeiro, sobre a possibilidade de serem concedidos
subsídios às usinas do Estado de São Paulo e que a
resposta fora negativa. E queria saber como eu
conseguira.
Sorri, misterioso, dizendo que eram
segredos do ofício e, ao lhe perguntar sobre a
liberação, afirmou que me entregaria o cheque dentro de
3 dias.
Juntamente com o relativo à exportação do açúcar
Demerara da semana anterior. Seria um desembolso total.
- Pode me trazer os dois recibos. Com
esse subsídio, professor, a sua usina não terá mais
problemas. Ainda mais que é a fundo perdido.
Efetivamente, entregou-me os dois
cheques no dia aprazado e eu os levei, juntamente com o
plano de utilização do subsídio, ao meu cliente.
- Muito bem, professor! Missão
cumprida!
Passado o fim de semana, fui
procurá-lo para conhecer sua opinião sobre o plano e,
eventualmente, promover algumas alterações. Mas o
escritório estava fechado. Em sua residência, só o
mordomo, que me disse.
- Eles partiram para a Europa,
professor... E me pagaram seis meses adiantados que, eu
acho, é o tempo que eles vão ficar por lá.
Seis meses adiantados...e eu não
recebi nem os atrasados! Eu, o melhor economista do
Brasil!
|
MEU AMIGO JUAN PERON
Em Buenos
Aires, a gente gasta o dia fazendo compras eu, apenas,
vendo vidrieras - que é como se chamam as
vitrines lá - na Calle Florida, Avenida Corrientes e
suas transversais, como a Rua Pasteur, na Avenida Santa
Fé e outras.
Mas à noite, depois de um bom banho e
um jerez ou um scotch, é bom que se eleja -
como dizem lá para escolha - um restaurante e um
espetáculo - que lá é cinema - ou um teatro, ou um
teatro, ou um concerto ou um show.
Nossos amigos argentinos recomendaram
dois coelhos numa cajadada: jantar no
Michelangelo e, lá mesmo, em seguida,
assistir a um badalado show.
Logo ao chegar, senti, o impacto da
majestosa fachada. É uma construção impressionante, do
início do século XVII.
Tijolo aparente, mas não parecia
tijolo. Dá para entender? Passei a mão, bati com nó do
dedo indicador, olhei, admirei os amplos arcos romanos
quando ouvi alguém me dizendo, respeitosamente, que eram
ladrilhos.
- Ladrilhos?!? Não pode ser!
Sim, eram ladrilhos, ou
seja, tijolos! Ora, bolas!
E batemos um papo. Sim, eu sou do
Brasil, ele é da Argentina, eu havia chegado na
véspera, ia ficar uns 5 ou 6 dias. Sim eu estava
gostando muito do passeio. Não, não era a primeira vez,
já a estive umas 5 ou 6 vezes na Argentina. Não,
Ushuaya não, mas Bariloche e Mar Del Plata eu conhecia.
Adios!
E nem nos apresentamos.
Aliás, não sei por que, ele me deu a
impressão de evitar isso.
Mas o mundo é pequeno. No dia seguinte
encontrei-o no Museo Nacional de Arte Decorativo. Após
um breve papo, dei-lhe meu cartão de visitas, anotando o
hotel em que eu estava hospedado. Um pouco sem jeito, ele
escreveu seu nome e endereço no verso do canhoto do
ingresso. Seu nome: Juan Peron.
- Juan Peron? É fantástico!
Contou-me, então, sua sina.
Seus aborrecimentos e sobressaltos. Os
telefonemas, no meio da madrugada. Os insultos e
agressões morais que se estendiam aos seus familiares.
Principalmente naqueles dias em que se esperava a volta
de Peron e algumas paredes traziam o aviso Peron
volverá cuando lhe canten las pelotas.
- Acha justo - dizia - que me ofendam a
aborreçam tanto, mesmo sabendo que sou um pobre
homônimo?
Fiquei com pena, mesmo. Coloquei-me em
seu lugar. Que horror! Cada toque da campainha do
telefone deveria arrepiar de medo. Cada interlocutor
desconhecido estaria representando, até, um perigo. Deus
meu! Que azar o do meu novo amigo, meu amigo Juan Peron!
Convidou-me para um chá em seu
apartamento, próximo dali.
Aceitei e, no caminho, procurava dar um
novo ânimo ao pobre homem. Cheguei a pensar, num
momento, se não ocorreria o deflagar de uma bomba
enquanto eu estivesse lá...Na véspera, haviam detonado
duas na Rua Tucuman, pertinho do hotel. Tá louco!
Chegamos. Apresentou-me sua esposa e
uma sobrinha.
- Mucho gusto, mucho gusto...
Olhei a paredes forradas de fotos, de
alto a baixo: tudo Juan Peron! O verdadeiro!
O que é que eu diria agora? Viva,
Viva? Parabéns? Numa das fotos, uma grande multidão
erguia os braços a Juan Peron. E seu amigo Juan Peron
não estaria lá?
Como podia revoltar-se tanto ao ser
confundido com o seu ídolo?
Pensei, em castelhano, olhando o meu
amigo Juan Peron nos olhos: a la madre que te parió!
BARÃO DE CHUÍ
|
UM PARAIBANO DAS ARÁBIAS
(OIBÁS)
Da pequena
cidade do interior da Paraíba, onde nascera, até chegar
à Corte de St. James, no alto posto de Embaixador do
Brasil, Chiquinho não levou muito tempo. Passou a ser
conhecido como Dr. Chateaubriand, Dr. Assis, Dr. Assis
Chateaubriand, Velho Capitão e, para os
íntimos, carinhosamente Chatô. Seu nome todo era
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello.
Colhido por uma triste paraplégia,
voltou à Inglaterra. Tinha esperanças, não de uma cura
que já sabia impossível, mas de adquirir um pouco mais
de mobilidade, aproveitando, ao máximo, as partes de seu
corpo menos afetadas, como o braço esquerdo. A cabeça
continuava a de um sábio, de um verdadeiro profeta dos
destinos do Brasil que vivia consertando com o uso do
chamado quarto poder - a imprensa.
Seus artigos e suas campanhas
representavam, sempre, uma força inquebrantável na
defesa dos interesses da sua amada pátria. Nem como
Senador da República conseguira influir mais
decisivamente nesse sentido. Seu notável exército - os
Diários e Emissoras Associados - crescia constantemente
e, sob o seu firme comando, registrava vitórias
seguidas.
Agora, do seu pequeno quarto do
Stockmandeville Hospital, de Aylesbury Buckinghamshire,
não distante de Londres, continuava no comando,
redigindo seus flamantes artigos na máquina de escrever
elétrica que os médicos do famoso hospital conseguiram
adaptar às suas deficiências. E, no mesmo dia através
da gentileza da Agência Reuters, de Londres, seus
escritos eram enviados ao Brasil, por telex, estampados
no dia seguinte, por todos os jornais da sua rede.
Mas isso não bastava. Ele queria,
sempre, fazer algo mais. E, do seu leito de paciente
impaciente, fundou um Museu em Belo Horizonte. Queria que
fosse inaugurado com a entrega de um livro - o Testamento
Original de Martim Affonso de Souza - que lhe havia sido
oferecido, dois anos antes, quando Embaixador, por um
livreiro de Oxford. Despachou seu secretário com a
incumbência de localizar a obra rara, adquiri-la e
marcar uma festa, em Londres, para fazer entrega ao novo
Embaixador do Brasil.
- E o dinheiro, Dr. Assis?
Ora...que o secretário visse quanto era e mandasse um
telegrama ao Tião (que era o ministro da Fazenda) para
que enviasse essa contribuição. Do seu próprio bolso,
frisou.
Tudo acertado, com um refinado
coquetel, expedidos os convites, obtida a autorização
médica para que Chatô se deslocasse, ele pede, ao
anoitecer da véspera, que fosse servido o vinho
Velho Capitão, uma homenagem que Carlos
Dreher lhe havia feito.
- Dr. Assis. Das duas caixas que
o Sr. Recebeu temos, apenas, uma garrafa! O Sr. Serviu
esse vinho a todos que o visitaram... A solução
veio rápida:- que o secretário levasse as garrafas
fazias para serem enchidas com Chateau Neuf du Pape. E
que os rótulos do Velho Capitão ficassem
bem à mostra...
E assim foi feito, graças às
diligências de seu antigo mordomo na Embaixada, o leal
Rolando Leal, a quem o secretário telefonou de
Aylesbury, marcando um encontro em Londres, à
meia-noite, para entregar-lhe os cascos vazios.
A festa estava em seu começo e, numa
rodinha, ao lado da cadeira de rodas de Chatô,
encontravam-se o Embaixador de Portugal, o Embaixador do
Brasil, o Senador João Camon e o Adido cultural da
Embaixada Brasileira, Fernando Sabino, quando o garçom
se aproximou e serviu o vinho.
Depois de sorver dois goles, o
Embaixador de Portugal pegou a garrafa da bandeja, leu,
cuidadosamente, sob o olhar malicioso de Chatô, o
rótulo e exclamou:- Precisamos tomar cuidado com o
Brasil...que vinho saboroso!
Do Gabinete Paraibano de Cultura/1992.
|