Este Site é em homenagem ao
Poeta
René Zmekhol
Falecido em 06/02/96.

Click aqui para Ler Contos IIContos de René Zmekhol - I

3 MINUTOS DE ROMANCE

Técnica - Prefixo
Locutor - Boa noite, ouvintes. No ar...3 minutos de romance...um encontro de amor, sonho e poesia...3 minutos de romance - produção e apresentação de René Zmekhol, com exclusividade para a Rádio Santo André...
Técnica - sobe o prefixo
Locutor - ...e com René ao microfone...3 minutos de romance
Técnica - entra o sufixo e vai a B.G.
René     - ...é sempre conveniente, a sociedade, a religião...e nós? Que deve ser feito desse afeto que ilumina nossa vidas...a minha ao menos ?
Pecado ?
Pecado seja! Mas as horas que vegeto, em tua ausência...são séculos de angústia. Tentei esquecer-te...melhor, pensei...mas não ! Não é humanamente possível, da face da terra, num dia radioso de primavera, fingir que o sol não existe...não é possível, amor...meu pensamento te procura, te encontra e nos aproxima, inapelavelmente...Pecado ? Pecado seja ! Ao menos, busco em teus beijos, longos, sensuais...o prêmio imerecido - quem sabe ? - desta abençoada aventura...de modo algum minhas emoções se sujeitam aos séculos de angústia que se escoam; quando longe de ti, eu já não vivo...mas apenas vegeto...
Técnica - sobe o sufixo e vai a B.G.
René     - As horas que vegeto, em tua ausência, são séculos de angústia e de tormento Que devo, assim, viver por conveniência.

     De nada vale, amor...meu pensamento
     Procura te encontrar, por imprudência,
     E traz-me, à sua volta, o sofrimento.

     Não posso te esquecer - e nem o quero !
     E não posso esquecer a tua boca...

     Os beijos pelos quais eu tanto espero
     São bem os prêmios da aventura louca !

Técnica - sobre o sufixo deixa até o fim do disco
Locutor - A rádio santo André apresentou...3 minutos de romance... um encontro de amor, sonho e poesia - produção e apresentação de René Zmekhol...
Técnica - Prefixo...
Locutor - Voltem a ouvir...3 minutos de romance na próxima 5ª feira, nesse mesmo horário...
Técnica - sobe o prefixo.
F I M
ZERO HORA



   Esperei, nervosamente, que os ponteiros do relógio se encontrassem.
Eu não queria ser surpreendido por ninguém. Da calçada fronteira ao meu edifício olhei para as janelas do 10º andar. Tudo apagado. Todos dormindo. Finalmente.

   Entrei no prédio, evitando o porteiro. Pé ante pé, mas sem exagero.

   No elevador, separei a chave, cuidadosamente. Entrei no melhor estilo de um experimentado ladrão. Fechei a porta, não sem antes ter mandado o elevador para o térreo.

   Com os dedos trêmulos fechei a porta do corredor que levava ao dormitório.
   Só então acendi as luzes da sala. Olhei carinhosamente para a caríssima aparelhagem de som. Nela eu já tinha ouvido, muitas vezes contra a vontade, Ney Matogrosso, Stevie Wonder, Elton John, Procol Harum, Roberto Carlos, Roberto Carlos, Roberto Carlos, Roberto Carlos, Milton Nascimento, Scott Joplin, Harmony Cats, Nara Leão, Elis Regina, Sylvester, Roberto, Carlos, Roberto Carlos e Roberto Carlos.

   Encontrei, facilmente, os fones de ouvido, coloquei-os na cabeça e enfiei o “jack” num dos orifícios do “jumbo”.

   Seria esse, mesmo, o orifício certo? Se não fosse eu correria o perigo de fazer barulho, ao ligar o aparelho e tudo iria por água abaixo...

   Resolvi virar o botão “volume” todo para a esquerda, o botão “seletor” para ‘PHONE1” e, só então apertei o “Power”.

   Abri cuidadosamente a tampa do toca-discos, puxei a pequena alavanca, de “Off” para “On-Up” e coloquei o disco que estava quase no fim da pilha.

   Cuidadosamente, trouxe o braço do toca-discos até a primeira faixa e puxei a pequena alavanca, de “On-Up” para “Down” .

   Mais cuidadosamente, ainda, girei o botão “volume” para a direita, bem devagar e...graças a Deus! Estava tudo certo. Uns doces acordes e eis que chega aos meus ouvidos, finalmente, depois de tantos anos, aquela voz doce, acariciante, quase divina que, em 1965 arrepiou a sensibilidade do gênio que foi Assis Chateaubriand numa das amplas salas de visitas mineiras”, na expressão de Sérgio Viotti. Naquela noite inesquecível, na casa do Prefeito Pierucetti, uma garota simples, envolvente com o brilho do seu doce olhar, mas tímida, me havia perguntado se poderia oferecer uma canção ao Dr. Assis que ali se encontrava em sua cadeira de paraplégico.

   - Claro, disse eu, deixe-me, apenas preveni-lo.

   Ante a aquiescência do grande jornalista - título que prezava acima do de embaixador - a garota se ajoelhou diante da cadeira de rodas, pousou a mão sobre a dele e, sem qualquer acompanhamento, ofereceu-lhe uma cantiga do nosso cancioneiro. O vozerio de muita gente que ali estava cessou como num passe de mágica. A emoção era geral. E a admiração - maior ainda.

   Depois dos aplausos vibrantes e demorados de todos os presentes ela continuou conversando com Chateaubriand e contou-lhe que pretendia ir, em breve, aos Estados Unidos para estudar canto.

   Recebi a ordem de apresentá-la a Bidú Sayão o que me apressei a fazer, redigindo uma cartinha, que, junto a outra apresentação a um amigo de Nova Iorque, entreguei-lhe na noite seguinte, enquanto jantávamos num restaurante de Belo Horizonte.

   No agradável diálogo que travamos, tentei dissipar todas as suas dúvidas e encorajá-la.

Estou feliz por ter ajudado um pouco.

Relembrando tudo isso, estou feliz também por ter dado o “golpe do toca-discos”. Agora, à zero hora, aqui em casa , os fãs de Roberto Carlos, Sylvester, etc., estão dormindo.

E eu posso, finalmente, escutar, inebriado, embora tenha adquirido o disco há mais de um mês, Maria Lúcia Godoy cantando Sabiá, Casinha Pequenina, Fiz a Cama na Varanda, É a ti Flor do Céu, Quem Sabe, Travessia e algumas jóias do cancioneiro italiano.

Parece pecado...mas pecado é não ouvi-la.


O SUBSÍDIO

   Ele era o melhor cliente do meu escritório de consultoria econômica e me atraíra, insistentemente, para um jantar em sua Fazenda, no interior de São Paulo.

   - Você não é amigo do ministro? Pelo amor de Deus, fale com ele!

   Expliquei, com toda a calma, que eu era seu amigo bem antes que lhe fosse entregue tão alto cargo. Éramos amigos e colegas. O coleguismo é m relacionamento que se acaba, seja ao fim do período escolar, seja quando os níveis de atuação profissional se afastam. E que a amizade, segundo o grande poeta espanhol Ramón de Campoamor, é um amor que não se comunica pelos sentidos.

   A esposa do meu cliente se encantou com a citação. Ele, porém, estava obcecado pela idéia de ver sua empresa incluída no rol das que seriam aquinhoadas pelos subsídios governamentais. Esperou que o mordomo de sua Casa Grande reabastecesse os copos com o excelente vinho Chateau Lafitte Rotschild, levantou o seu e brindou, sorridente:-

   - Ao seu encontro, amanhã, com o ministro!

   De nada valeram meus argumentos em contrário. Teria que ser no dia seguinte, mesmo sem audiência marcada. E logo pela manhã, pois o conselho Monetário Nacional iria aprovar, à tarde, a distribuição da verba. Meu cliente era um homem de rara educação e muito convincente. Repetiu:-

   - Pelo amor de Deus! O ministro é seu amigo...

   Na manhã seguinte, já chegando ao Rio de Janeiro, deslumbrado, pela enésIma vez, com a luxuriante visão da Cidade Maravilhosa, eu agradecia a Deus e ao presidente da República por não ter sido, anda, transferido para Brasília o Ministério da Fazenda.

   Constatei logo que, de fato, eu mantinha prestígio junto ao homem poderoso das finanças públicas: menos de quinze minutos depois de me haver anunciado, ele me recebia. Bonachão como sempre, sorridente e irônico, perguntou se eu preferia um café ou um refresco nordestino. Outro amigo comum se encontrava presente, seu Chefe de Gabinete.

   Depois de um breve diálogo sem compromisso. Contei que estava assessorando uma usina de açúcar, no interior de São Paulo. E que espera que ela estivesse incluída entre as beneficiárias do subsídio de emergência que seria votado, naquela tarde, pelo CMN. Ele pediu ao Francisco, o Chefe de Gabinete, a proposta que seria encaminhada.

   Eram todas usinas do norte e nordeste. Expliquei, meio irritado, que não se justificava tal discriminação. Que a usina paulista estava sofrendo, igualmente, a conjuntura desfavorável, que chegava a ser odioso esse eterno favorecimento, que...

   Interrompeu-me, sorrindo, e, perguntando qual o nome da “minha”, usina, acrescentou-a à lista, abaixo do total.

   - De quanto vocês precisam?

   Tive um momento de hesitação, enquanto examina, furtivamente, os valores consignados e escolhi o maior deles. Eu não tivera tempo de preparar um dossiê, por mais sintético, para justificar o pedido, se o ministro viesse a concordar. E, mais, não tinha qualquer parâmetro. Esse problema me assaltou, durante todo o vôo. Agora, vendo os números das outras usinas, senti-me firme para solicitar o subsídio de maior valor.

   Enquanto o ministro puxava o novo total, Francisco preveniu-o de que a verba, assim, estouraria. A reação foi imediata:

   - A verba, ora a verba !...Mande, assim mesmo, para o Conselho.

   Agradeci muito e me levantei, para me despedir, ao que o ministro protestou:

   - Espera ai...encheu a barriga e já vai embora? Me conta uma coisa. É verdade que você é campeão da Regata da Escola Naval? O Chico jurou e eu não acreditei...

   Contei-lhe, então, as peripécias da última regata, mas corrigi a informação. Eu conquistara o vice-campeonato.

   - Mas, para um paulista, isso é mais do que ser campeão ! Meus parabéns! Como é? Não quer ficar aqui no Rio, na minha equipe?

   Agradeci, emocionado, a oferta e expliquei a série de motivos que não me permitiam aceitá-la. E me despedi, ansioso por telefonar ao meu cliente.

   Ele me atendeu, ouviu o relato e declarou, com toda a naturalidade:

   - Eu não disse que o ministro era seu amigo?

   A bordo do Eletra, na poltrona de minha preferência, na popa, depois de ter conhecimento de que o CMN havia aprovado, efetivamente, a lista completa dos subsídios, eu já ia, mentalmente, preparando o plano de aplicação. Pagos os débitos em atraso, ainda sobraria uma bela importância para investir na área de moagem, nas pesquisas de um subproduto de grande procura nos mercados mundiais e no aumento da frota de veículos. Agora eu tinha um parâmetro. Só faltava preparar o projeto. E eu não entendia, anda, como é que o Conselho Monetário Nacional aprovara o “meu” subsídio sem qualquer justificativa...

   Outra coisa que eu não entendia era a frieza com que meu cliente recebeu a notícia, quando lhe telefonei; tão eufórico. No encontro pessoal, na manhã seguinte, em seu luxuoso escritório de São Paulo, a frieza era a mesma. Ele examinava um grande globo terrestre, quando entrei em sua sala. Respondeu, solenemente, ao meu cumprimento e perguntou:

   - Professor, o senhor sabe dizer o nome de três cidades que estejam no mesmo paralelo de São Paulo?

   - Antofagasta, no Chile, Concepción, no Paraguai, Massinga, em Moçambique e Rockhampton, na Austrália.

   - Muito bem...me disse quatro! E há, ainda Tulém, em Madagáscar!

   Essa era uma de suas manias e, por isso, eu havia decorado, também, as cidades que se encontravam no mesmo meridiano.

   - E no mesmo meridiano, professor?...

   - Fora do Brasil, só Juliane, na Groenlândia

   - Julianeaab - completou ele, sorridente.

   Ultrapassado o onanismo geográfico, entramos no assunto principal. O que ele queria, mesmo, saber era a data em que seria liberado o subsídio, onde e se seria em parcelas. Redargüi que essas informações seriam obtidas nos próximos dias que, enquanto isso, eu estaria finalizando o plano de aplicação dos recursos para submetê-lo à sua aprovação.

   - Ah! Muito bem, professor...assim que souber, por favor me avise.

   O delegado do Instituto do Açúcar e do Álcool em São Paulo sempre me recebia com extrema cordialidade. Desta vez, porém, foi demais, Fez-me verdadeira festa, disse que eu era o melhor economista do Brasil, que a usina do meu cliente estaria falida se não com minha assessoria e muito mais disse, enquanto me cumprimentava pela sensacional vitória. Fez questão de explicar que havia consultado o IAA, matriz, no Rio de Janeiro, sobre a possibilidade de serem concedidos subsídios às usinas do Estado de São Paulo e que a resposta fora negativa. E queria saber como eu conseguira.

   Sorri, misterioso, dizendo que eram segredos do ofício e, ao lhe perguntar sobre a liberação, afirmou que me entregaria o cheque dentro de 3 dias.
Juntamente com o relativo à exportação do açúcar Demerara da semana anterior. Seria um desembolso total.

   - Pode me trazer os dois recibos. Com esse subsídio, professor, a sua usina não terá mais problemas. Ainda mais que é a fundo perdido.

   Efetivamente, entregou-me os dois cheques no dia aprazado e eu os levei, juntamente com o plano de utilização do subsídio, ao meu cliente.

   - Muito bem, professor! Missão cumprida!

   Passado o fim de semana, fui procurá-lo para conhecer sua opinião sobre o plano e, eventualmente, promover algumas alterações. Mas o escritório estava fechado. Em sua residência, só o mordomo, que me disse.

   - Eles partiram para a Europa, professor... E me pagaram seis meses adiantados que, eu acho, é o tempo que eles vão ficar por lá.

   Seis meses adiantados...e eu não recebi nem os atrasados! Eu, o melhor economista do Brasil!


MEU AMIGO JUAN PERON

   Em Buenos Aires, a gente gasta o dia fazendo compras eu, apenas, vendo “vidrieras” - que é como se chamam as vitrines lá - na Calle Florida, Avenida Corrientes e suas transversais, como a Rua Pasteur, na Avenida Santa Fé e outras.

   Mas à noite, depois de um bom banho e um jerez ou um “scotch”, é bom que se eleja - como dizem lá para escolha - um restaurante e um espetáculo - que lá é cinema - ou um teatro, ou um teatro, ou um concerto ou um “show”.

   Nossos amigos argentinos recomendaram dois coelhos numa cajadada: jantar no “Michelangelo” e, lá mesmo, em seguida, assistir a um badalado “show”.

   Logo ao chegar, senti, o impacto da majestosa fachada. É uma construção impressionante, do início do século XVII.

   Tijolo aparente, mas não parecia tijolo. Dá para entender? Passei a mão, bati com nó do dedo indicador, olhei, admirei os amplos arcos romanos quando ouvi alguém me dizendo, respeitosamente, que eram ladrilhos.

   - Ladrilhos?!? Não pode ser!

   Sim, eram “ladrilhos”, ou seja, tijolos! Ora, bolas!

   E batemos um papo. Sim, eu sou do Brasil, ele é da Argentina, eu havia chegado na véspera, ia ficar uns 5 ou 6 dias. Sim eu estava gostando muito do passeio. Não, não era a primeira vez, já a estive umas 5 ou 6 vezes na Argentina. Não, Ushuaya não, mas Bariloche e Mar Del Plata eu conhecia.

   Adios!

   E nem nos apresentamos.

   Aliás, não sei por que, ele me deu a impressão de evitar isso.

   Mas o mundo é pequeno. No dia seguinte encontrei-o no Museo Nacional de Arte Decorativo. Após um breve papo, dei-lhe meu cartão de visitas, anotando o hotel em que eu estava hospedado. Um pouco sem jeito, ele escreveu seu nome e endereço no verso do canhoto do ingresso. Seu nome: Juan Peron.

   - Juan Peron? É fantástico!

   Contou-me, então, sua sina.

   Seus aborrecimentos e sobressaltos. Os telefonemas, no meio da madrugada. Os insultos e agressões morais que se estendiam aos seus familiares. Principalmente naqueles dias em que se esperava a volta de Peron e algumas paredes traziam o aviso “Peron volverá cuando lhe canten las pelotas”.

   - Acha justo - dizia - que me ofendam a aborreçam tanto, mesmo sabendo que sou um pobre homônimo?

   Fiquei com pena, mesmo. Coloquei-me em seu lugar. Que horror! Cada toque da campainha do telefone deveria arrepiar de medo. Cada interlocutor desconhecido estaria representando, até, um perigo. Deus meu! Que azar o do meu novo amigo, meu amigo Juan Peron!

   Convidou-me para um chá em seu apartamento, próximo dali.

   Aceitei e, no caminho, procurava dar um novo ânimo ao pobre homem. Cheguei a pensar, num momento, se não ocorreria o deflagar de uma bomba enquanto eu estivesse lá...Na véspera, haviam detonado duas na Rua Tucuman, pertinho do hotel. Tá louco!

   Chegamos. Apresentou-me sua esposa e uma sobrinha.

   - Mucho gusto, mucho gusto...

   Olhei a paredes forradas de fotos, de alto a baixo: tudo Juan Peron! O verdadeiro!

   O que é que eu diria agora? Viva, Viva? Parabéns? Numa das fotos, uma grande multidão erguia os braços a Juan Peron. E seu amigo Juan Peron não estaria lá?

   Como podia revoltar-se tanto ao ser confundido com o seu ídolo?

   Pensei, em castelhano, olhando o meu amigo Juan Peron nos olhos: a la madre que te parió!

BARÃO DE CHUÍ


UM PARAIBANO DAS ARÁBIAS
(“OIBÁS”)

   Da pequena cidade do interior da Paraíba, onde nascera, até chegar à Corte de St. James, no alto posto de Embaixador do Brasil, Chiquinho não levou muito tempo. Passou a ser conhecido como Dr. Chateaubriand, Dr. Assis, Dr. Assis Chateaubriand, “Velho Capitão” e, para os íntimos, carinhosamente Chatô. Seu nome todo era Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello.

   Colhido por uma triste paraplégia, voltou à Inglaterra. Tinha esperanças, não de uma cura que já sabia impossível, mas de adquirir um pouco mais de mobilidade, aproveitando, ao máximo, as partes de seu corpo menos afetadas, como o braço esquerdo. A cabeça continuava a de um sábio, de um verdadeiro profeta dos destinos do Brasil que vivia consertando com o uso do chamado quarto poder - a imprensa.

   Seus artigos e suas campanhas representavam, sempre, uma força inquebrantável na defesa dos interesses da sua amada pátria. Nem como Senador da República conseguira influir mais decisivamente nesse sentido. Seu notável exército - os Diários e Emissoras Associados - crescia constantemente e, sob o seu firme comando, registrava vitórias seguidas.

   Agora, do seu pequeno quarto do Stockmandeville Hospital, de Aylesbury Buckinghamshire, não distante de Londres, continuava no comando, redigindo seus flamantes artigos na máquina de escrever elétrica que os médicos do famoso hospital conseguiram adaptar às suas deficiências. E, no mesmo dia através da gentileza da Agência Reuters, de Londres, seus escritos eram enviados ao Brasil, por telex, estampados no dia seguinte, por todos os jornais da sua rede.

   Mas isso não bastava. Ele queria, sempre, fazer algo mais. E, do seu leito de paciente impaciente, fundou um Museu em Belo Horizonte. Queria que fosse inaugurado com a entrega de um livro - o Testamento Original de Martim Affonso de Souza - que lhe havia sido oferecido, dois anos antes, quando Embaixador, por um livreiro de Oxford. Despachou seu secretário com a incumbência de localizar a obra rara, adquiri-la e marcar uma festa, em Londres, para fazer entrega ao novo Embaixador do Brasil.

   - “E o dinheiro, Dr. Assis?” Ora...que o secretário visse quanto era e mandasse um telegrama ao Tião (que era o ministro da Fazenda) para que enviasse essa contribuição. Do seu próprio bolso, frisou.

   Tudo acertado, com um refinado coquetel, expedidos os convites, obtida a autorização médica para que Chatô se deslocasse, ele pede, ao anoitecer da véspera, que fosse servido o vinho “Velho Capitão”, uma homenagem que Carlos Dreher lhe havia feito.

   - “Dr. Assis. Das duas caixas que o Sr. Recebeu temos, apenas, uma garrafa! O Sr. Serviu esse vinho a todos que o visitaram...” A solução veio rápida:- que o secretário levasse as garrafas fazias para serem enchidas com Chateau Neuf du Pape. E que os rótulos do “Velho Capitão” ficassem bem à mostra...

   E assim foi feito, graças às diligências de seu antigo mordomo na Embaixada, o leal Rolando Leal, a quem o secretário telefonou de Aylesbury, marcando um encontro em Londres, à meia-noite, para entregar-lhe os cascos vazios.

   A festa estava em seu começo e, numa rodinha, ao lado da cadeira de rodas de Chatô, encontravam-se o Embaixador de Portugal, o Embaixador do Brasil, o Senador João Camon e o Adido cultural da Embaixada Brasileira, Fernando Sabino, quando o garçom se aproximou e serviu o vinho.

   Depois de sorver dois goles, o Embaixador de Portugal pegou a garrafa da bandeja, leu, cuidadosamente, sob o olhar malicioso de Chatô, o rótulo e exclamou:- “Precisamos tomar cuidado com o Brasil...que vinho saboroso!

Do Gabinete Paraibano de Cultura/1992.